“Lula tem uma trajetória política e pessoal comparável somente a de Nelson Mandela”, diz Ricúpero
O secretário-geral da Unctad analisa o desempenho da equipe
Brasília - A política externa conduzida pelo governo Lula ganhou destaque dentro e fora do Brasil. Foram 18 viagens presidenciais com destinos bem variados. Suíça, Nova York, Namíbia, Líbia, Bolívia. Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de grandes comitivas, esteve nos 4 dos 5 continente do planeta e já no início de janeiro deverá ir a Índia, incluindo também a Ásia em seu roteiro. Além das viagens, a atuação do Brasil em foros internacionais, como no encontro da Organização Mundial do Comércio em Cancún, a na condução das negociações da Alca, colocou a equipe da diplomacia brasileira em evidência como em nenhum outro período.
Muitos se perguntam se Lula não foi populista, ou talvez, até imperialista. Para Rubens Ricúpero, secretário geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), esses adjetivos não cabem para caracterizar a atuação do presidente brasileiro. O embaixador, a convite da Agência Brasil, fez um análise da atuação do Brasil no plano internacional. Para ele, Lula tem uma trajetória política e pessoal comparável somente a de Nelson Mandela, sul-africano que tornou-se presidente de seu país após anos preso por protestar contra o regime do Apartheid. E por isso, a figura de Lula continua atraindo os interesses da comunidade internacional.
Ricúpero fala da atuação brasileira na liderança das negociações em foros multilaterais como na OMC e na ONU. Elogia a criação do G20, do G3 e a condução das negociações da Alca. Para ele, foi um ano de muita criatividade diplomática. Acompanhe a seguir, a íntegra da entrevista.
Agência Brasil - Internacionalmente a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu atenção jamais vista por outro governante brasileiro. A que se deve esse interesse?
Rubens Ricúpero - Esse grande destaque se deve a muitos fatores. O primeiro tem haver com a personalidade do presidente e por ele ter uma biografia única em termos da autenticidade de sua origem operária como um migrante do nordeste. Uma origem de muita luta. Creio que hoje não há em nenhum lugar do mundo um chefe de Estado com a história pessoal como a dele. Só podemos comparar sua trajetória e ascensão política com a vida de Nelson Mandela. E Lula não ficou apenas repousando sobre passado, ele soube se empenhar muito com idéias próprias. Eu destacaria, em primeiro lugar, a prioridade em acabar com a fome no mundo. Em segundo, o dinamismo com que ele realizou as viagens internacionais e procurou defender essas posições. Acrescento o fato de que a política externa conduzida sob a liderança de Lula conta com a atuação do ministro Celso Amorim que tem sido invencível em suas ações. Essa idéia de se criar muito cedo um eixo entre a Índia e a África do Sul, ao qual se vem acrescentando outros países em desenvolvimento, é uma iniciativa diplomática brilhante. Acredito que uma das melhores que o Brasil adotou em todos os tempos. E tudo isso somado resulta cada vez mais na projeção do prestígio do Brasil.
Agência Brasil - Quando o presidente Lula venceu as eleições presidenciais, muitas lideranças internacionais e analistas temiam que ele atuasse de uma forma muito radical, chegaram a compará-lo Fidel ou a Chavez. Que rumo o senhor acha que o governo Lula tem tomado?
Rubens Ricúpero - Havia um temor de que Lula fosse extremamente irrealista e radical no discurso, como também havia um temor de que se repetissem os erros do passado em termos de um populismo prematuro na condução da política econômica. O presidente soube desmentir esses dois tipos de temores, sem romper com sua autenticidade porque ele continuou com uma linha muito genuína em relação a manutenção de seu compromisso com os pobres e com os trabalhadores. Por isso, acho muito feliz a iniciativa da campanha contra a fome. Ele soube combinar muito bem: de um lado o cuidado em evitar políticas que fossem extremamente radicais e populistas, de outro, sem dúvida nenhuma, os bons resultados que tem acolhido também na política econômica em termos de criação de confiança internacional, da redução da inflação, da taxa de risco Brasil, o apoio do fundo monetário do Banco Mundial.
Agência Brasil - O Brasil adotou três prioridades no plano externo: a América do Sul, a África e o Oriente Médio. O que efetivamente essa política vai trazer para o Brasil e o que isso significa?
Rubens Ricúpero - É interessante que ele tenha prosseguido nessa linha de intensificar o relacionamento com América do Sul e que tenha feito isso procurando aproveitar o potencial que existe para a integração da infra-estrutura relacionada ao transporte, à comunicação, ao abastecimento de energia. A região ainda tem muito o que fazer para se integrar. Destaco também o êxito que ele teve em consolidar o Mercosul com esse recente acordo com os países do grupo andino. Em relação às outras regiões, é bem vinda essa volta do Brasil e o continente africano. No Oriente Médio se concentram alguns dos problemas políticos mais agudos que existem internacionalmente, mas de uma maneira geral, o interessante na política externa brasileira vai além de algumas áreas localizadas. Por exemplo, há muita flexibilidade, muita inteligência em compensar com algumas áreas o que falta em outras. No plano comercial, nas questões da Alca, o Brasil dificilmente vai contar com o apoio dos países latino americanos, pois muitos deles dependem do mercado americano. Nessa área em particular, que evidentemente é uma área mais complicada do que a área de integração de infra-estrutura , a política externa brasileira tem procurado diversificar mercados, abrindo novas possibilidades. Este ano que passou foi muito positivo em relação a aproximação com a China, agora esta se tentando estreitar a relação com a África do Sul e a Índia. O eixo do G20 permitiu que o Brasil tivesse muitos aliados nas negociações comerciais. Temos uma política inteligente que não se concentra em apenas uma ou outra região, mas procura em cada região identificar aquilo que é mais interessante para os objetivos brasileiros.
Agência Brasil - Alguns analistas avaliam a atuação de Lula como populista e até como uma ação imperialista. Como o senhor a analisa?
Rubens Ricúpero - Isso não tem sentido. Imperialismo é um conceito de países que impõem poder, que procuram dominar militar e economicamente. Esse tipo de palavra, no caso, é até um absurdo, porque o Brasil é um país que não tem projeção militar nenhuma e no ponto de vista econômico, ainda luta com muita dificuldades até mesmo para poder cooperar. Quanto a primeira critica, eu também não creio que ela seja fundamentada porque é preciso, hoje em dia, que o um presidente use a fundo esse instrumento da diplomacia presidencial. O que só se faz através da presença física, da viagem. Não há excesso nenhum quando se trata justamente de marcar uma presença.
Agência Brasil – Vamos tratar um pouco mais detalhadamente da importância da formação do G20 e do enfrentamento que o Brasil liderou perante os países desenvolvidos que resultou no fracasso da rodada de Cancún. Recentemente os integrantes desse grupo se reuniram aqui no Brasil e tiraram algumas diretrizes...
Rubens Ricúpero - Essa iniciativa foi muito oportuna. As críticas a ela não têm fundamento porque a formação do grupo dos 20 se deu em resposta a uma tentativa dos americanos e europeus em tentarem anular as negociações comerciais em agricultura. O tema é de grande interesse para o Brasil. O fato de termos conseguido montar uma coalizão impressionante com a China, Índia, África do Sul e inúmeros outros países criou esse impasse que infelizmente em Cancun não permitiu prosseguimento das negociações. Isso é um insucesso apenas provisório. Já houve outras ocasiões em negociações comercias no passado em que um problema momentâneo foi o preço que se teve que pagar para ter um resultado melhor no futuro. A reunião que ocorreu recentemente no Brasil demonstrou isso, o grupo tem resistido bem pois é muito coeso. Houve uma ou outra desistência de um país mais frágil. Aqueles que permanecem são muito firmes. É preciso levar em conta que esse grupo está reunido para resolver principalmente os impasses da questão agrícola. O Brasil lançou uma outra idéia vinculada a organização em eu trabalho na ONU (a Unctad). Vamos tentar aproveitar essa rede para gerar mais comércio entre os países em desenvolvimento. Pretendemos negociar um acordo que não seja de preferências, mas que estabeleça um livre comércio. O presidente Lula deve vir a Genebra em janeiro para discutirmos essa idéia que será amplamente debatida em uma conferência internacional a ser realizada em São Paulo em junho próximo.
Agência Brasil - Criou-se o termo Alca-light para definir uma proposta na qual os temas mais polêmicos, como a questão do protecionismo agrícola, disputa de patentes, serão discutidos na OMC, fora da Alca. O senhor acha que isso pode funcionar?
Rubens Ricúpero - A solução brasileira é a mais lógica. Na verdade, se observarmos as coisas de perto, a situação anterior é que era desequilibrada. Os americanos, desde o início das negociações queriam jogar para a OMC os temas que eram de interesse do Brasil, sobretudo a redução dos subsídios agrícolas e as questões anti-dumping, que afetam o mercado do aço brasileiro. E queriam incluir na Alca temas mais complicados para nós, como as regras que estabelecem direito intelectua a patentes, que poderiam tornar inviável o projeto brasileiro de barateamento dos medicamento usados pelos portadores de HIV. Se nós tivermos que transferir a OMC por serem temas sistêmicos globais assuntos como a questão do subsidio agrícolas ou do anti-dumping, então devemos igualmente transferir os temas que pertencem por natureza a OMC, como as regras que se aplicam sob o comércio de serviços, sob as patentes de propriedade intelectual, sob investimentos.
Outra coisa que no Brasil os críticos muitas vezes esquecem, é que a idéia de se negociar a Alca em temos bilaterais, ou seja, negociar interesses do Mercosul com o dos EUA, nasceu dos americanos. No mês de fevereiro deste ano, quando eles deveriam ter feito as ofertas relacionadas as reduções de tarifas entre os países negociadores da Alca, no lugar deles oferecerem uma só proposta válida para os trinta três paises, os EUA dividiram as propostas em quatro ofertas: uma melhor para os países do Caribe, outra menos favorável para a América Central, a terceira mais desvantajosa para os andinos e a pior de todas para o Mercosul. Portanto, quando o Brasil resolveu propor uma negociação Mercosul-Estados Unidos, o que estávamos fazendo era simplesmente utilizando o mesmo sistema, a mesma abordagem que eles utilizaram. E quem acha que isso não é uma boa idéia deveria verificar que a idéia partiu dos Estados Unidos e não de nós.
Fonte: Agência Brasil